Há em São Miguel dos Campos, cidade a pouco mais de 50km de Maceió, instalada às margens da BR 101, uma ambiguidade quando tratamos de uma espécie legítima da mata atlântica brasileira. Ao falarmos, por aquelas bandas, do simpático e gigantesco Jatobá, árvore típica da localidade, um colosso que pode medir até 40 metros de altura e viver por mais de 2 mil anos, corre-se o risco de se citar, de modo incidental, outro "colosso" da cidade - este, no sentido político e mítico da expressão.
O autor da ambiguidade é Nivaldo Jatobá, um dos mais influentes e poderosos políticos da região. Além de empresário do ramo canavieiro e proprietário de toda uma gama de empreendimentos - que vão de concessionárias de automóveis até uma praia particular - NJ também foi prefeito de São Miguel por dois mandatos. Ao sair, diante de uma popularidade crescente, deixou no seu lugar a namorada, Rosiane Santos - não sem antes alardear, para todos os miguelenses, que deixara de se relacionar com a futura prefeita.
Dessa forma, unidos oficialmente apenas pelo "laço político", Rosiane foi eleita chefe do executivo, onde permenceria após vencer mais uma eleição, só saindo de lá após o TSE constatar, de Brasília, o que nenhuma autoridade jurídica de Alagoas conseguiu enxergar: apesar de separados, Jatobá (o político) e Rosiane tinham sim, uma relação afetiva estável. A então prefeita e seu padrinho tiveram seus direitos políticos cassados, assumindo o segundo colocado nas eleições de 2008, o não menos enrolado juridicamente George Clemente - essa porém, é uma outra história.
O pitoresco desse caso é que, quatro anos depois de reeleger sua candidata e quase um ano após ser condenado pela justiça eleitoral, Jatobá (o político) está de volta, numa reaparição apoteótica, candidato pela 3ª vez à prefeitura da cidade. Diante da desconfiança em lançar um nome de seu grupo, e da inelegibilidade explícita de Rosiane, resolveu ele mesmo eliminar os intermediários, e tentar ser prefeito da cidade novamente. Como o Jatobá (a árvore), NJ quer provar que pode, sim, ter vida longa e raízes profundas na política miguelense.
O que pouca gente nota, numa cidade que parece cega e dividida entre a paixão pelo encarnado e o azul como num pastoril, é que NJ é condenado no mesmo processo que cassou Rosiane Santos. E por mais que tenha se lançado, fazendo espocar rojões e levar ás lágrimas seus correligionários (aos gritos de "uh, papai chegou"), sabe disso. Boa raposa política que é, está levando seu nome e peso político até onde a justiça deixar, enquanto nos bastidores já alinha um nome para deixar no seu lugar, quando finalmente o TRE bater à porta.
Sabe-se que a disputa, com a inclusão de NJ, equilibra a balança, que era amplamente favorável a Clemente. E numa eleição onde se vencerá ou perderá por um detalhe, a foto de Jatobá (o político) na urna eletrônica, mesmo se não for candidato, pode definir um dos seus como o futuro prefeito. Se a impugnação ou a desistência sair a poucos dias do pleito, por um desses truques políticos, é assim que acontecerá.
Além das raízes profundas e vida longa, Jatobá (o político) parece guardar outra semelhança inegável em relação à homônima Jatobá (a árvore): ambos ostentam a fama de "madeira de lei", bastante casca-dura.

Beleza de texto Cabeça!
ResponderExcluirMas no próximo, não dê mais evidência a "gente" do tipo desse "Jatobá Velho".
Uma sugestão: Elabore mais textos incentivando o voto consciente do alagoano.