quinta-feira, 31 de maio de 2012

Plurais diminutos



Por Marlon Silva¹

Debater-me-ei mais. Até quando? – expressão de sufoco, proferida por um sentimento de frustração. É o que faço. Por que faço não vem ao caso – embora alguns questionem -, faço e pronto. Esse “pronto” não é uma sentença com toda a sua seriedade severa, é como se exprimisse: que outro jeito. E a música segue em tons do momento – executada por DJ hábil e arrumado -, e a dança arrasta-se em movimentos passadiços, conforme ensina o licitado coreógrafo. Todos os pés estão indo, vão indo, em frente – sempre -, atrás, com, pela moda, pela ladeira, pela vida. Estou no meio, em meio, me sentindo pela metade. Tento deixar rastro, mas sou tão prosaico, tão sem terra nas unhas, que dirá...

Há quanto tempo... muito tempo. De quanto seria a soma? Qual o peso teria? Se fosse uma estrada, quanto já teria percorrido? Se por acaso fosse um livro, quantas páginas somaria? O certo é a incerteza, a imprecisão daquilo que foi feito, mesmo que se tenha tentado fazer o melhor, fazer de um outro jeito. Não é a vontade que conta, um homem só é pouco, sua insuficiência é notória, porque anunciada. Intenta-se, com isso, apontar um culpado.

“O bagulho é doido”, diz a letra do rap, os casos de educação são mais doidos ainda, mas não deveriam ser bagulhos. Bagulho é o que se joga fora, o que se descarta – muitas vezes nem são descartáveis -. É bagulho um pré-adolescente que há nove anos vai à escola sem saber a noção de plural, o que é um diminutivo? O que dizer de outros – muitos – que “aprenderam” na mesma cartilha? Essa cartilha, sim, é bagulho; mas quem a escolheu? Quem a instituiu? Como rasgá-la, descartá-la?

“O boi sabe onde arromba a cerca”- diz um ditado popular.

A canção diz: Ê, ô ô, vida de gado, povo marcado ê, povo feliz”. Marcados, sim, esses meninos estão, esses pobrezinhos que sabem juntar as letras, as sílabas para formar as palavras, e essas são inócuas, porque não alcançados seus sentidos. Marcados sim, são os pais desses meninos pobres, que agradecem a aquiescência benfazeja de uma bolsa – e só por isso, muitos desses pobres meninos estão na escola.

O sistema é bruto - diz um clichê -, as regras, o “ABC”, a reza são as mesmas para todos da mesma laia das escolas públicas desse país varonil, laico, pátria de todos nós. Que os anjos não digam amém – expressão dita pela minha bisavó.


¹ Marlon Silva é escritor, poeta e professor da rede municipal de ensino de Teotonio Viela/AL. É autor de três livros e ativista político e cultural na cidade, que fica a 100km de Maceió.

Um comentário:

  1. texto muito poético(como a maioria dos textos que o marlom escreve)quebrando com o uso de eufemismos muito citados pela linguagem expressiva ,marlom vai além ,buscando no contidiano distorções sociais humanas e políticas (como a ausência de uma educação contextualizada)usando expressões coloquiais ,o escritor se fez comunicável com a gente ao seu redor ,mergulhando em seus dilemas e em sua inépcia.

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