terça-feira, 29 de maio de 2012

Um governo de gabinete


O assalto que vitimou o médico José Alfredo Vasco, 67 anos, em pleno corredor cultural Vera Arruda, uma das áreas mais nobres de Maceió, traz a tona os mesmos velhos pesadelos que assolam os alagoanos há mais de um século. Somos, sim, uma micro-sociedade acuada pela violência. Apesar de pequeno, se comparado aos outros estados da federação, Alagoas ostenta um nada orgulhoso título de líder nacional no ranking de assassinatos e mortes violentas.

A pergunta quase inevitável, depois de mais um crime que sensibiliza a todos, é: de quem é a culpa por tanta violência num microcosmo tão insignificante, se comparamos o aspecto geográfico e populacional em relação a outros estados?

Podia-se, claro, recorrer aos politicamente corretos e eternos argumentos sociológicos de sempre: uma sociedade com baixa escolaridade, associada à falta de oportunidades daqueles que não encontram outro caminho, senão o da marginalidade. Um dia, se nossa polícia conseguir concluir esse inquérito, fatalmente chegará a conclusão de que se tratavam de um punhado de jovens, em busca de dinheiro para adquirir drogas.

Porém, o buraco desse problema é mais embaixo - ou melhor, está bem no centro da capital, alocado no 4º andar do palácio de vidro que chamamos de República dos Palmares. O ponto nevrálgico do problema da segurança em Alagoas está situado na falta de capacidade técnica e de liderança do nosso governador, Teotonio Vilela Filho.

Vilela, que foi alçado à vida pública na sombra de seu pai, parece não ter aprendido com o velho Téo Vilela (1917 - 1983) que política não se faz no conforto acarpetado das reuniões e articulações de gabinete, mas ouvindo e sendo parte dos anseios da população. O já doente Téo pai não abriu mão, nem com seu câncer cada vez mais grave, de empenhar uma verdadeira peregrinação pelo Brasil em torno da redemocratização. Deixou o parlamento, rebelou-se com a ditadura, mudou de partido - enfim, deu satisfação de sua atuação política ao povo que o elegeu, mesmo quando a enfermidade já tolhia suas forças.

Téo Filho prefere o frio discurso institucional. Ao invés de vestir (e suar) a camisa da reconstrução de um estado que seu pai tão bem representou, prefere a liturgia massante das entrevistas coletivas, onde pode ser adulado por alguns jornalistas chapas-branca e aspones  amestrados. Em vez de dialogar com as lideranças do povo que governa, prefere viajar a Brasília em busca de uma não-confirmada audiência com a presidenta da república.

Na esfera prática, quando o assunto é a gestão do sistema de segurança do estado, as ações do governo reduzem-se a entrega de alguns coletes, botas e motocicletas - tudo, claro, às custas do dinheiro federal. Não há um planejamento específico, nem tampouco se enxerga vontade política para fazê-lo, seja em curto, médio ou longo prazo. Desabam como castelos de areia as promessas, como as 400 viaturas, o policiamento comunitário, a contratação de 1000 policiais por ano - compromisso ainda de sua primeira campanha ao governo, em 2006.

Infelizmente, foi necessária a morte de um bom alagoano, profissional dedicado, para que a sociedade esfregasse seus olhos, e enxergasse a realidade além das entrevistas coletivas do governador, ou dos comerciais promovidos por sua assessoria de comunicação, um dos maiores orçamentos do país.

Antes tarde do que nunca. Que o tiro em Zé Alfredo ecoe além dos programas policiais, e penetre nos envidraçados corredores do palácio República dos Palmares.

4 comentários:

  1. É triste, mas as vezes perco a fé na humanidade. As coisas só tomam proporções assim quando é assassinado um médico, empresário, advogado, POLÍTICO, aí sim as notícias vão pra tv e geram passeatas contra a violência.

    Tão simples quanto a conclusão do inquérito sugerida é a solução para esses problemas: Mais policiamento na área NOBRE da cidade pare que mais nenhum médico, empresário, advogado morra.

    O que alavanca os índices de homicídios e faz de Maceió proporcionalmente a 3ª cidade mais violenta do mundo, não são os ricos que morrem e sim os pobres que todos os dias aparecem mortos nos plantões de polícia da vida, mas isso não causa revolta nem indignação. A indiferença prevalece.

    Espero que essa causa seja mais nobre do que aparenta, e que saibam o quão "mais em baixo" é o buraco.

    Espero que quando o policiamento da Ponta Verde, for aumentado e não haja mais roubos e assassinatos na região, o fato da cidade ser MUITO VIOLENTA não caia no esquecimento pelo simples motivo de não afetar os RICOS dentro dos seus carros quando passam pelo Pontal, para ir a suas enormes casas na Barra de São Miguel.

    Minhas sinceras condolências a família da vítima, mas pra mim continua parecendo HIPOCRISIA.

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    1. Por mais que eu concorde com tudo que você expõe Guilherme, não posso deixar de crer que a organização da sociedade é positiva, mesmo que motivada por um crime que amedrontou a classe média maceioense.

      No entanto, a mobilização ganhou contornos gigantescos, e chegou a um nível que fatalmente chegaria: discutimos hoje quem são os responsáveis pelo aumento da violência, o que é um indício de que a sociedade toda está de olho nessas próximas eleições.

      Obrigado pela interação, grande abraço!

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  2. É ENGRAÇADO COMO AS PESSOAS DIZEM MEU DEUS O QUE EU FIZ PRA MERECER ISSO... E SE ESQUECEM QUE DEUS NÃO VOTA. ELE NOS DEU LIVRE ARBITRIO DE ESCOLHERMOS TUDO QUE QUEREMOS, E TALVES JUSTAMENTE POR ESSA LIBERDADE... MUITAS DAS VEZES ESCOLHEMOS MAL, MAS MUITO MAL MESMO, E AÍ TERMINAMOS PAGANDO UM PPREÇO MUITO ALTO.

    ENQUANTO NÃO HOUVER CONSCIÊNCIA POR NOSSA PARTE DE QUE UM BOM POLÍTICO, NÃO É AQUELE QUE ESTUDOU NA UNICAMP, UFAL, HARVARD, OU OUTRAS DESSAS AÍ. O VERDADEIRO POLÍTICO É AQUELE QUE ESTUDOU NA ESCOLA DA VIDA E QUE SABE O QUE REALMENTE O SER HUMANO PRECISA NÃO SÓ DE PROMESSAS, E SIM DE DAR EDUCAÇÃO, MAS UMA EDUCAÇÃO VERDADEIRA... HÁ MEU DEUS QUE TEMPOS BOM AQUELE DA PALMATORIA E DOS CAROÇOS DE MILHO, ISSO NÃO ERA CASTIGO, MAS SIM ENSINAMENTO PORQUÊ UMA FICASSE NO MILHO ERA MUITO DIFÍCIL MORRER ANTES DOS 16 ANOS E DESOBEDECER PAI E MÃE E MUITO SER MAIS UMA VÍTIMAS DAS DROGAS...

    DROGAS... NA VERDADE ESTÁ EM TODO LUGAR PRINCIPALMENTE NAS URNAS.... E QUANDO VEMOS AQUELAS FOTOS HORRÍVEIS...

    DEUS NOS PROTEJA... SEMPRE... ISSO SIM É VERDADEIRO...

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    1. Você tocou num ponto central, Laudenilson. A violência é sempre uma consequência daquilo que o poder público esqueceu de fazer no passado. Educação de qualidade, saúde, lazer.

      Apareça sempre!

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