"Quero trabalhar em paz,
Não é muito o que lhe peço;
Eu quero um trabalho honesto,
Em vez de escravidão."
Trecho da música "Fábrica", de Renato Russo
A
citação, que bem poderia ter saído de um dos livros de Karl Marx ou Friederich
Engels, foi extraída da música Fábrica, de Renato Russo, inclusa no disco
"Dois" da Legião Urbana, de 1986. Pelo fervor e comoção que causa o
tema, era sempre usada para abrir os espetáculos da banda, num recado claro e
objetivo à juventude da época: a questão do trabalho rural e urbano.
E por que
evocar Marx & Engels, um quase-mantra da esquerda mundial - revolucionária
ou não - desde a revolução russa, em 1917? dentre as muitas respostas, vamos
usar a mais óbvia delas: nenhum outro intelectual, antes ou depois, estudou tão
profundamente as desigualdades que surgem nas organizações sociais, a partir da
divisão do trabalho.
Já
naqueles tempos, a centralização dos meios de produção na mão de alguns poucos
abastados criava um perverso sistema de dominação: o que os teóricos chamavam
de burguesia, dona das fábricas, máquinas e terras, mantinha sob seu domínio, a
ferro e fogo, um grande contingente de trabalhadores, que não sendo donos das
ferramentas geradoras do capital, tinham como única alternativa a venda dos
seus serviços manuais ao patrão.
Sem leis,
era comum uma jornada de 12, 14 e até 18 horas diárias. Crianças eram vistas
aos montes nas colheitas e fábricas, e mortes de trabalhadores eram quase
cotidianas. Trocava-se o morto por mais um dos milhares à espera de uma vaga, e
assim seguia a caravana. Ao gosto do patrão.
Essa é
uma pequena introdução das formas de trabalho nos séculos 18 e 19 - ou seja,
esse era o modus operandi dos donos do poder há quase 300 anos. De lá
pra cá, esse modelo mudou muito, com algumas exceções aqui e ali, sempre
respeitando as peculiaridades de cada país, onde o trabalho é um elemento
estabelecido a partir da cultura de cada povo. Hoje, é quase uma unanimidade
mundial a jornada de trabalho de 40 horas semanais - o que equivale a 8 horas
diárias, de segunda a sexta-feira; um salário mínimo, fixado por lei, que
subsidie necessidades básicas e condições humanas mínimas de trabalho.
É aí que
reside uma revolta sem tamanho - quando, em pleno 2012, se depara com
indivíduos e corporações que ainda pensam como se estivessem no século 18. Dois
casos semelhantes mostram bem o quanto ainda se precisa avançar na questão. O
que tem acontecido, entre o meio rural brasileiro e até entre nossos
legisladores no congresso nacional, seria de causar asco e espanto a Marx e
Engels, se ainda vivos e sabedores que ocorre por essas bandas.
Há
algumas semanas, depois de incontáveis acordos e adiamentos, o congresso
nacional finalmente aprovou um conjunto de leis contra o trabalho em condições
degradantes, similares à escravidão - a PEC do trabalho escravo. Diante de uma
obstrução absurda por parte do lobby dos grandes latifundiários, o Brasil
protelou durante anos a vigência de uma estrutura de proteção ao trabalhador
rural, o que afinal conseguiu vencer nesta semana - quantos teriam sobrevivido
se as leis existissem antes?
Outro
fato que expõe nossa ferida ainda aberta é a pena aplicada a um grupo alagoano,
proprietário de duas fazendas no Pará, condenado a pagar uma multa de R$ 5
milhões, a maior já aplicada a uma empresa no Brasil, por manter 180
trabalhadores em condições de escravidão. Por lá, não existia carteira
assinada, jornada de trabalho, alojamentos ou mesmo comida - a não ser que
comprassem, o que caracteriza servidão por dívida, quando o trabalhador não
consegue se libertar da condição de empregado porque tem dívidas com o
empregador.
Para além
dos corredores acarpetados e salas climatizadas de Brasília, ainda há uma elite
rural e de pensamento escravista encravada nos rincões do nosso país. Que além
de defender seus interesses, com um pesado lobby na capital federal e nos
parlamentos estaduais, ainda pensa que é natural tratar um indivíduo
despossuído como de menor categoria, lhe negando aquilo que, dentre tanto que
falta, é o essencial: dignidade.
Que os
exemplos acima comecem a mudar essa realidade. Pelo bem do trabalhador honesto
brasileiro.
Para saber mais sobre a situação do trabalho escravo no Brasil, acesse a página oficial do movimento, clicando aqui.



Este comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluirÉ imperativo e urgente extirpar de nossos coraçoes e mentes este viés escravocrata, xenofóbico, elitista, preconceituoso e autoritário que nos impede de avançar, de descortinar o horizonte da liberdade, da solidariedade e da democracia que a atual conjuntura nos impõe.
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