"Joaquim José
Da Silva Xavier
Queria ser dono do mundo
E se elegeu Pedro II
Das estradas de Minas
Seguiu pra São Paulo
E falou com Anchieta
O vigário dos índios
Aliou-se a Dom Pedro
E acabou com a falseta
Da Silva Xavier
Queria ser dono do mundo
E se elegeu Pedro II
Das estradas de Minas
Seguiu pra São Paulo
E falou com Anchieta
O vigário dos índios
Aliou-se a Dom Pedro
E acabou com a falseta
Da união deles dois
Ficou resolvida a questão
E foi proclamada a escravidão"
Trecho de "Samba do Crioulo Doido", de Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta (1968)
O mais assíduo leitor desse blog - e até mesmo os nem tão assíduos - irão notar (e até por alguns momentos se entediar com) o tema, por tão onipresente no debate político alagoano. Como saído da imaginação dos mais criativos autores globais de novelas, nossa assembleia legislativa é pródiga na execução de episódios que seriam pitorescos, se não fossem trágicos.
Há alguns dias, um dos mais conhecidos e temidos personagens daquela casa explicitou sua opinião, quando perguntado sobre a questão da violência no estado. O parlamentar, mandatário do poder pela região de Coruripe, declarou que "vai largar a espingarda pra cima", ele mesmo, quando descobrir os autores de um possível crime que ocorreu na cidade. O personagem ainda dispensou os serviços das polícias militar e civil, e disse que ele mesmo irá tomar providências quanto à falta de segurança local.
Esse mesmo deputado, no exercício de seu quarto mandato, subiu pouquíssimas vezes nas tribunas da assembleia, seja para discursar ou pelo menos apartear alguns dos seus pares em sessões da casa. Também não é autor de nenhum projeto de lei, ou sequer membro de comissão permanente. Se por vergonha alheia ou amedrontados, seus colegas deputados não lhe conferiram, nesses 14 anos de parlamento, nenhuma tarefa relevante para o futuro do estado.
Na contramão do ostracismo das espingardas, um outro parlamentar vem causando barulho na casa de Tavares Bastos, seja pelos projetos pitorescos, pelo minúsculo partido que preside, pelo sobrenome tradicional na região norte alagoana, ou simplesmente pela postura contestadora que vem adotando, se destacando até mesmo perante aqueles que historicamente fizeram oposição às mesas diretoras que se sucederam na assembleia: é João Henrique Caldas, ou simplesmente JHC, único parlamentar do PTN no estado (e provavelmente um dos únicos no país).
A última do deputado, que já corou seus pares no começo do mandato ao requerer a presença do presidente Barack Obama em Alagoas, foi o rebuliço que causou na sessão ordinária da última quarta-feira (16), ao afirmar que os integrantes da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da casa fazem "reuniões fantasmas", para aprovar projetos de interesse do executivo. A derradeira delas teria ocorrido para aprovar um duvidoso remanejamento de R$ 15 milhões, para a conclusão das obras de duplicação da AL101 Norte.
Sem afirmar ser a favor ou contra o parecer da comissão, JHC cobrou somente a existência da reunião que definiu os tais parâmetros. Foi o suficiente para uma desproporcional reação de seus colegas, que se sentiram ofendidos com o pedido, e desencadearam uma sucessão de discursos raivosos, que resultou inclusive em ameaça de cassação: "Poderia caber ação por quebra de decoro", sentenciou o presidente Fernando Toledo. Em outro momento de intimidação, um deputado convidou JHC a "andar com uma melancia pendurada", em vez de cobrar resultados da comissão.
Vem daí o trecho do samba que ilustra a abertura desse texto. Como na caricatura de Stanislaw Ponte Preta, Alagoas vive o mais nonsense e absurdo samba do crioulo doido dos mais recentes tempos. É uma época onde resolver a própria segurança na espingarda é uma alternativa vista como "corajosa", mas cobrar dos seus pares o funcionamento correto de um organismo de controle interno, essencial para o exercício da boa democracia, é caso de "caber ação por quebra de decoro", nas palavras do próprio presidente da casa - logo ele, saindo à francesa depois de um vergonhoso processo que afanou uma vaga ao TCE/AL do ministério público de contas do estado.
A postura de JHC, por mais ingênua em relação à cova de leões em que se mete, é uma luz nas trevas que se tornaram os salões da nossa assembleia. O deputado faz, mesmo que por meios tortuosos, aquilo que a legislatura lhe assegura: cobrar, debater, propor. Por mais que saiba que a lei não-escrita por essas bandas seja a da "resolver na espingarda", parece preferir seguir um caminho mais republicano, o da "melancia pendurada" - coisa que sequer os oposicionistas de sempre parecem ter coragem para fazer.
Por mais que a lógica do burburinho das ruas seja a da espingarda, como é bom encontrar quem ainda prefira a doçura e o frescor de uma boa melancia.

Finalmente uma solução para a questão da segurança em Alagoas: acaba com a PM e contrata o Frederico Evandro, a besta fera das Alagoas. É triste ver que Alagoas ainda vive na época do cangaço, e o pior, legalizado.
ResponderExcluirParabéns pelo belo texto! De volta, a acidez que estava faltando.