quarta-feira, 21 de março de 2012

Calma, Dilma


Lá se vão 15 meses de gestão, e a presidenta Dilma vai implementando a sua marca ao governo do país. Famosa pelo jeito firme e por vezes austero com que trata as questões políticas, Dilma vai fazendo os que transitam ao seu redor entenderem um novo modelo de trabalho - reuniões periódicas, ascensão de técnicos especializados, cobrança de resultados, regime de metas.

Com esse seu estilo, a presidenta vai impondo, principalmente ao congresso, novos paradigmas. O relacionamento com o parlamento agora é outro, muito mais baseado nas questões propositivas e na capacidade gerencial dos partidos e lideranças, do que no velho "jeitinho" político, que fez sucesso e foi o modus operandi da política em Brasília, desde que as paredes do congresso foram erguidas.

Esse comportamento da presidente pode ser entendido sob dois aspectos: de um lado, o da líder inovadora e corajosa, responsável por inaugurar na relação com o parlamento aquilo que é a essência da política - ou pelo menos deveria ser: o critério mais técnico do que partidário, a escolha baseada em desempenho, a fiscalização do trabalho, o debate de ideias. Por outro lado, a postura de Dilma pode ser entendida como uma falta de "traquejo" em lidar com as mais diversas aspirações dos mais diversos interesses que chegam aos seus ouvidos. A presidente, então, estaria sendo enquadrada por esses atores.

Um sinal claro dessa segunda questão vem sendo dado desde a semana passada em Brasília. O governo já não consegue mais impor sua agenda, não aprova ou encaminha assuntos de seu interesse, por medo do andamento das votações. Sua base de apoio está dispersa, ansiosa, temerosa. Projetos importantes para o país e de grande repercussão popular, como a lei geral da Copa ou o código florestal vão se arrastando pelas sessões, sem uma definição.

Está bem claro que Dilma quer mudar esse modelo de relação. Mesmo tendo sido eleita sob a sombra de Lula, que sabia como ninguém utilizar esse formato para fazer andar o país, a presidenta quer continuar no sentido positivo que Lula deixou, mas não parece estar disposta a manter essa conversa de pé de ouvido baseada no toma lá, dá cá.

A presidenta acerta no remédio, mas erra na dosagem. Parece ser muito radical. Diferente de Lula, parece não entender que uma relação saudável com o parlamento é essencial para a aprovação de projetos importantes. Mais do que isso, um governo não pode abrir mão daquilo para o qual foi eleito; fazer política, como se faz numa democracia.

Lentamente, o desgaste vai travando o congresso. E numa democracia, sem congresso paramos o país. Vale esse custo para mudar - de forma justa - práticas fisiológicas políticas seculares? resta agora confiar no taco da presidente eleita por 60 milhões de brasileiros.

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